Desigualdade: mais de 40% das mulheres negras estão subutilizadas no mercado de trabalho

 Dados foram apresentados em ferramenta lançada pelo Centro de Estudo das Relações de Trabalho e Desigualdade (Ceert)

Pandemia deixou mulheres negras em situação ainda pior no mercado de trabalho

Dados publicados às vésperas deste 21 de março, Dia Internacional de Luta contra a Discriminação Racial, reforçam o que já se sabia: ainda há muito a percorrer para redução da desigualdade. Segundo levantamento do Centro de Estudo das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert), 41,5% das mulheres negras estavam subutilizadas no mercado de trabalho no fim de 2021. Para efeito de comparação, a subutilização entre os homens brancos era de cerca de 18% no mesmo período.

O IBGE considera que a taxa de subutilização inclui pessoas desocupadas, subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas e a força de trabalho potencial.

Os dados constam do Painel do Mercado de Trabalho, que acaba de ser lançado e está disponível gratuitamente no site do Ceert. O painel mostra os principais dados raciais no universo do trabalho, e a ideia é manter a ferramenta em constante atualização. Novos estudos serão apresentados periodicamente, avaliando ainda questões como capacitismo, sexismo e LGBTQIAPfobia. 

Criado em 1990, o Ceert é uma organização não-governamental que produz conhecimento e desenvolve projetos voltados para promoção da igualdade de raça e gênero. A organização atua em espaços como sindicatos, escolas, empresas e órgãos públicos. Diante desse histórico, o diretor executivo da ONG, Daniel Teixeira, foi convidado a integrar a equipe de transição de governo na área de trabalho e emprego.

"A subutilização da força de trabalho negra, sobretudo da mulher negra, é muito grande, e esse problema aumentou durante a pandemia, que impactou diferentemente trabalhadores negros e brancos, sobretudo trabalhadoras negras nesse período", pontuou Teixeira. 

O diretor executivo do Ceert afirma que os números apurados não surpreendem, apenas dão luz a uma realidade que faz parte do cotidiano do país há muito tempo. 

"A gente já tem a noção das questões de subutilização [profissional], e como ela impacta a população negra: muito mais que a população branca, mas sempre nos toca muito quando a gente vê os dados atualizados", lamentou.

Teixeira destacou que o Ceert, uma organização formada por pessoas negras, quer oferecer nova perspectiva para a análise da desigualdade no Brasil, trabalhando para criação de novas políticas públicas de promoção à equidade. O Painel do Mercado de Trabalho nasce nesse contexto.

"O desafio é muito grande, e é necessário que, quando o novo governo pensar políticas públicas, não tenha mais a questão do antirracismo como um gueto de política pública, e sim algo que faça parte de forma estrutural, de forma sistêmica no olhar de quem engendra política pública no Brasil", disse.

Para o Ceert, a promoção da igualdade racial é um dos grandes desafios do novo governo. Por isso a criação do Ministério da Igualdade Racial, comandado por Anielle Franco, foi celebrada.

"Hoje é preciso que o olhar seja de algo sistêmico de antirracismo nas políticas públicas, que permeie todas as políticas públicas, senão a gente vai continuar deixando mais da metade da população brasileira, que é a população negra, para trás, num projeto de desenvolvimento para o Brasil", complementou.

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